Quando Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, lembrou que
reunir elementos dispersos, concatená-los e estruturar-lhes o plano de ação, na
ordem superior que nos orienta o idealismo, é serviço de indiscutível
benemerência porque demanda sacrifício pessoal, oração e vigilância na fé
renovadora e, sobretudo, elevada capacidade de renunciação (1), definiu para o
meio espírita o que se pretende fazer e obter com a Unificação.
Em seu dicionário, o professor Aurélio (2) define unificar como sendo: reunir em
um todo ou em um só corpo; tornar uno; fazer convergir para um só fim. Fácil
perceber que o conceito de Unificação vigente no meio espírita, contido naquelas
palavras de Emmanuel, é uma aplicação direta dessa definição.
Constatando, de início, a coerência com que a Unificação está definida, cabe
analisarmos a essência do processo para entendermos esse todo e,
compenetrando-nos e procedendo em convergência a esse único fim, tornemo-nos
unos. Essa proposta, inclusive, se pauta no amorável convite do Espírito de
Verdade: trabalhemos juntos e unamos nossos esforços a fim de que o Senhor, ao
chegar, encontre acabada a obra (3).
Origens
Não sendo nossa pretensão a de erigir um levantamento histórico do Movimento
Espírita (M.E.), permitir-nos-emos destacar apenas alguns dos pontos que
registramos como muito significativos nesse fecundo terreno da Unificação.
Na obra kardequiana
Já na abertura da primeira obra espírita - O Livro dos Espíritos -, os Espíritos
da Codificação assinaram conjuntamente uma mensagem na qual se destaca a
preocupação com esse grande ideal: ...Todos os que tiverem em vista o grande
princípio de Jesus se confundirão num só sentimento: o do amor do bem e se
unirão por um laço fraterno, que prenderá o mundo inteiro. Estes deixarão de
lado as miseráveis questões de palavras, para só se ocuparem com o que é
essencial (4).
Em sua obra seguinte - O Livro dos Médiuns -, já com uma visão do que viria a
ser chamado de Movimento Espírita, o Codificador assim se referiu: Convidamos,
pois, todas as Sociedades espíritas a colaborar nessa grande obra. Que de um
extremo ao outro do mundo elas se estendam fraternalmente as mãos e eis que
terão colhido o mal em inextrincáveis malhas (5).
Observando as dissensões entre grupos e entre aqueles que buscam estabelecer
princípios diferentes da base Universal dos ensinos dos Espíritos, Kardec
pondera: Se houvessem compreendido a força dos elementos morais que lhe
constituíram a unidade, não se teriam embalado com ilusões quiméricas.
(...) Em lugar de romperem a unidade, quebraram o único laço que lhes podia dar
força e vida (6).
Em Obras Póstumas, o Codificador deixa claro que tinha uma percepção de futuro
muito segura: Os espíritas do mundo todo terão princípios comuns que os ligarão
à grande família pelo sagrado laço da fraternidade, mas cujas aplicações
variarão segundo as regiões, sem que, por isso, a unidade fundamental se rompa;
sem que se formem seitas dissidentes a atirar pedras e lançar anátemas umas às
outras, o que seria absolutamente anti-espírita. Poderão, pois, formar-se, e
inevitavelmente se formarão, centros gerais em diferentes países, ligados apenas
pela comunidade da crença e pela solidariedade moral, sem subordinação de uns
aos outros... (7).
Como em nosso estudo ainda iremos usar outras citações do Mestre Lionês,
concluiremos este item com uma singela assertiva do Espírito Henri Heine, que
sintetiza: "Deus abençoa a solidariedade" (8).
E Já que a Unificação passa necessariamente pela solidariedade, podemos inferir
que ela é por Deus abençoada.
No movimento espírita brasileiro
A história da implantação do Espiritismo no Brasil apresenta uma face rica em
fatos e uma faceta que revela a dificuldade que o homem tem em atender aos
compromissos da boa exemplificação. Dentre os fatos, destacamos a atuação
pioneira de médiuns e trabalhadores do quilate de Bezerra de Menezes, Augusto
Elias, Luiz Olympio Telles de Menezes, Ewerton Quadros, Romualdo Victorio,
Frederico Figner, Leopoldo Machado e tantos outros que, com seus esforços,
puderam editar e manter um O Eco d'Além Túmulo e um Reformador,
corresponderem-se com o próprio Codificador, traduzirem os primeiros volumes da
nova ciência sob o guante de vigorosas perseguições, além de outros exemplos de
destemor e fé. Nas facetas, encontramos os equívocos da interpretação
personalizada que chegaram a levar o movimento nascente a verdadeiras batalhas
anti-fraternas entre irmão de tão nobre ideal quanto o é o Espírita.
Tanto que no início deste século, conforme registrou Reformador de setembro de
1901, num memorável artigo, o confrade Pedro Richard, outro baluarte do
Espiritismo no Brasil, assim se expressava: Pregamos a fraternidade, afirmamos
que o Espiritismo tem por fim a confraternização de todos os homens e, no
entanto, vivemos separados e não raro em dissidência! Pregamos a humildade como
condição primordial para a nossa salvação, reconhecemos que o orgulho é o
inimigo do espírito e nos confessamos fracos, mas queremos operar sozinhos e
confiados às nossas próprias forças, agindo por conta própria e ao nosso
bel-prazer! - Não, meus amigos; sem união não pode haver força e sem força não
se opõe resistência aos ataques das inúmeras coortes inimigas... (9).
Foi quando se comemorava o centenário de Kardec, em 1º de outubro de 1904, que
os espíritas brasileiros decidiram, de fato, organizar o Movimento Espírita
dentro de uma estrutura homogênea e lastreada nos tríplice aspecto do
Espiritismo; surgiu então o documento que ficou conhecido como Bases de
Organização Espírita. Nesse documento já estava previsto que as Sociedades que
aderissem ao programa da Federação Espírita Brasileira (FEB) se filiariam ...sem
nenhuma relação de dependência disciplinar, mas unicamente com intuitos de
confraternização e unidade de vistas (10).
Quarenta e cinco anos após, a 5 de outubro de 1949, aconteceu a Grande
Conferência Espírita Realizada no Rio de Janeiro, a qual ficou conhecida como
Pacto Áureo. Sem dúvida, foi um passo decisivo para a implantação e assimilação
da idéia unificacionista do Brasil, já de há muito defendida exemplarmente pelo
eminente Dr. Adolfo Bezerra de Menezes. Como era grande a dispersão em que o
M.E. se encontrava, seria óbvio surgissem nesse documento dispositivos de teor
administrativo para nortearem os primeiros passos no sentido de se estabelecer a
pretendida unificação. Decorrentemente, o tempo se encarregaria de apresentar a
necessidade de atualização de alguns desses dispositivos.
Isso, entretanto, não diminuiu o valor do Pacto Áureo, assim como não o
entronizou como documento perfeito.
Partindo do Pacto Áureo, o Conselho Federativo Nacional (CFN) foi instalado
oficialmente a 1º de janeiro de 1950, conforme Proclamação aos Espíritas (11)
datada de 8-3-1950, sendo este, até os dias atuais, o órgão da FEB encarregado
da Unificação.
Nas mensagens espíritas
O universo de mensagens que o meio espírita possui acerca da Unificação é
enorme. Devido à presença ativa do eminente Dr. Bezerra de Menezes, desde os
pródromos do Movimento Espírita Nacional e da própria FEB até os dias atuais -
tanto quando encarnado como hoje em Espírito - nos permitiremos aqui colocar
duas referências de suas. Por não termos conseguido localizar nenhum registro de
Bezerra do século passado, não consideramos a cronologia nessas citações.
Entretanto, elas valem pelo seu teor e aqui surgem como uma homenagem de
reconhecimento por seu labor.
Numa mensagem inesquecível (12), assim se expressa Bezerra através da
psicografia de Francisco Cândido Xavier: O serviço da unificação em nossas
fileira é urgente, mas não apressado. (...) É urgente porque define o objetivo a
que devemos todos visar; mas não apressado, porquanto não nos compete violentar
consciência alguma. Mantenhamos o propósito de irmanar, aproximar,
confraternizar e compreender, e, se possível, estabeleçamos em cada lugar, onde
o nome do Espiritismo apareça por legenda de luz, um grupo de estudo, ainda que
reduzido da Obra kardequiana, à luz do Cristo de Deus. (...) Ensinar, mas fazer;
crer, mas estudar; aconselhar, mas exemplificar; reunir, mas alimentar. (...)
Nada que lembre castas, discriminações, evidências individuais injustificáveis,
privilégios, imunidades, prioridades. Amor de Jesus sobre todos, verdade de
Kardec para todos... (grifos originais).
Em outra oportunidade, agora sob a psicofonia de Divaldo Franco (13), assim
reflete ele sobre nosso comportamento: As nossas decisões são baseadas nas
palavras de Jesus; a nossa definição é o Evangelho (...). Jesus, para nós, é o
zênite e o nadir (...). Porfiai, pois, obreiros da Nova Era! Tende a coragem de
discutir sem dissentir, de discordar sem separar, porque o nosso fulcro é a
Verdade que defenderemos com a própria vida....
Devido ao seu valor e ao tratamento específico dado à questão, inserimos neste
espaço um pouco da palavra do Espírito Emmanuel - pela psicografia de F. C.
Xavier: Trabalhar pela Unificação dos órgãos doutrinários do Espiritismo no
Brasil é prestar relevante serviço à causa do Evangelho Redentor junto à
Humanidade. (...) Trabalhemos, pois, entrelaçando pensamentos e ações, dentro
dessas diretrizes superiores de confraternização substancial. A tarefa é
complexa, bem o sabemos. O ministério exige lealdade e decisão. Todavia, sem o
suor do servo fiel, a casa pereceria sem pão (14).
Desenvolvimento
Antes de seguirmos, importa distingamos que não é a Doutrina Espírita o
Movimento Espírita em si; a primeira tem suas bases codificadas por Allan Kardec
e alargada por obras complementares visto ser o Pensamento Kardequiano um
conjunto basicamente sintético (15); o segundo, em princípio, é o conjunto de
ações, atitudes e repercussões que, pautadas na própria Doutrina Espírita, visam
coordenar, orientar e desenvolver as atividades dos espíritas. Cabe ao
Movimento, portanto, o estudo, o desenvolvimento, a vivência e a divulgação dos
postulados espíritas, tanto pelas individualidades quanto pelas Sociedades
Espíritas.
Do seio do Movimento é que surge a necessidade de se unir esforços para se
auferir melhores resultados, pelo que a Unificação se interpõe como o
organizador das ações dos grupos de trabalho do M.E. de modo a possibilitar
aqueles resultados, no menor prazo e com menos prejuízos.
O CFN, órgão que traz em seu bojo a proposta de executar, desenvolver e ampliar
os planos da sua (FEB) atual Organização Federativa (16) e do qual fazem parte,
como membros, as unidades federativas dos Estados brasileiros, manteve o
espíritos do estabelecimento de relações fraternas do Bases de Organização
Espírita: As Sociedades componentes do Conselho Federativo Nacional são
completamente independentes. A ação do Conselho só se verificará, aliás,
fraternalmente, no caso de alguma Sociedade passar a adotar programa que colida
com a doutrina exposta nas obras: "O Livro dos Espíritos" e "O Livro dos Médiuns
...(17). Lamentavelmente, parece não ser do conhecimento de alguns grupos essa
realidade, pelo que o próprio CFN vai, por vezes, acusado de não possuir este
que é um princípio básico em seu estatuto.
Com a implantação desse Conselho e a ocorrência de suas reuniões regulares, vêm
sendo detectados, estudados e implantados alguns dispositivos no intuito de
melhor orientar a desenvoltura do Movimento Espírita Nacional. Documentos como A
Adequação do Centro Espírita para o Melhor Atendimento de suas Finalidades
(1977), Orientação ao Centro Espírita (1980) e Diretrizes da Dinamização das
Atividades Espíritas (1983) aliados a campanhas como da Evangelização da
Infância e Juventude, de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, Em Defesa da
Vida e Viver em Família são a demonstração prática da busca pela atualização.
Contudo, sabemos que programas tão amplos e gerais, mesmo sendo elaborados com a
participação de representantes das várias regiões do país, naturalmente
continuarão sofrendo a necessidade de revisões e adaptações para que possa bem
atender a realidades por vezes tão heterogêneas.
Como ler e ouvir não são a mesma coisa que participar e sentir, percebemos que
várias células do Movimento Espírita, por não participarem das reuniões
regionais e nacionais do CFN, não percebem o alcance mais profundo das propostas
surgidas; por semelhança de atitudes, o mesmo nos é permitido pensar de alguns
representantes que, embora indo a essas mesmas reuniões, lhes faltam a vivência
das realidades das Casas Espíritas que não a própria. Como o CFN, enquanto órgão
de Unificação, deve interpretar a Organização Federativa como sendo a
organização do próprio Movimento Espírita em si - já que não se concebe imaginar
esse Movimento dividido se a base, a estrutura e os objetivos são um só, ou
seja, a própria Doutrina Espírita -, cabe ao CFN, de fato, ampliar seus
horizontes, albergando em seu seio não apenas a representação indicada por
regimentos excludentes, mas as representações que de fato representem as
realidades do M.E. Isso, inclusive, não é novidade. Na reunião do CFN realizada
em Brasília, de 3 a 5 de julho de 1981, o então presidente da FEB, Sr.
Francisco Thiesen, sugeriu a criação de um Quadro Especial de Entidades
Federativas do CFN, ...permitindo que todos os espíritas e Entidades, como o
"Instituto de Cultura Espírita do Brasil", a "Associação Social Paulo de Tarso",
a "Fundação Cristã-Espírita Cultural Paulo de Tarso", a "Cruzada dos Militares
Espíritas", a "Sociedade Pró-Livro Espírita em Braile" etc., tenham acesso ao
CFN... (18). Nessa mesma reunião, em suas palavras finais o presidente Thiesen
asseverou: Preconizamos reformas que em nada diminuam a atuação , abrangência e
eficiência do CFN, mas que lhe dê mais amplitude, talvez deixando de ter
estrutura tipicamente federativa, que não nos parece ser a mais apropriada hoje.
É esta uma outra questão a ser examinada, e concluiu ratificando que O Conselho
(...) precisa e merece ser transformado, entrando em novo e mais alto estágio,
quiçá com novo nome (19).
Apenas para não deixar este assunto em aberto, na reunião seguinte do CFN, Em
Brasília, de 2 a 4 de julho de 1982, o mesmo Francisco Thiesen voltou a
ratificar sua posição, acrescentando que ... continuamos pensando assim, é que
os espíritas responsáveis pelo Movimento devem planejar o seu trabalho. Não
devem manter-se na rotina e ser arrastados pelo carros do progresso. Queremos
evitar que o progresso nos imponha um comportamento que a nossa imprevisão não
tenha sabido planejar.
(...) O que desejamos é resolver os problemas da Unificação e os senhores sabem
que os problemas estão bem dimensionados, são conhecidos, mas não estão
resolvidos. E aquilo que não está resolvido, não o está porque não temos tido
suficiente coragem para enfrentar as realidades que se nos apresentam no
dia-a-dia (20). A seguir, a maioria dos representantes presentes apoiaram a
palavra do presidente, seguindo-se a formação de uma comissão para, no prazo de
noventa dias, apresentarem a estrutura desse Quadro. Na reunião do CFN dos dias
25 a 27 de novembro de 1983, aquela comissão apresentou seu relatório favorável
à constituição do Quadro Especial de Entidades não Federativas (21), cuja
implantação se deu de imediato. Em nossa visão pessoal, entretanto, acreditamos
que a estrutura que foi sugerida por esse relatório e aprovada pelo plenário,
num futuro que já chegou, apresenta a necessidade de aperfeiçoamento e,
inclusive, de ampliação de sua base (22).
Completando esta seqüência, no Congresso Mundial de Espiritismo, ocorrido no
período de 2 a 5 de novembro de 1990 em Li'ege, Bélgica, iniciaram-se os
trabalhos para a formação de um Conselho Espírita Internacional (CEI), cujos
trabalhos tiveram continuidade por ocasião do Congresso Internacional de
Espiritismo (Feespírita/91), realizado pela Federação Espírita do Estado de São
Paulo de 18 a 20 de outubro de 1991 e contando com o apoio e a participação da
União das Sociedades Espíritas de São Paulo (USE) e da FEB (23). Exatamente a 28
de novembro de 1992, durante o Congresso Mundial de Espiritismo realizado em
Madrid, Espanha, foi fundado o CEI (24).
Retornando a Kardec
Por força do que já anotamos no item 2.1 acima, fácil reconhecer que pertence a
Kardec a idéia original acerca da Unificação; a FEB também o reconhece
publicamente: A Unificação inicia-se com o trabalho de Allan Kardec que (...)
realizou diversas viagens de visitas a núcleos nascentes do Espiritismo, levando
esclarecimentos e apoio e observando as realidades e as necessidades desses
primeiros grupos (25), acrescentando que Esse trabalho, que tem como base os
princípios fundamentais da Doutrina Espírita, decorreu basicamente da orientação
dos Espíritos na própria Codificação (26).
Na verdade, o Codificador sabia dos problemas que poderiam advir: A necessidade
de uma direção central superior, guarda vigilante da unidade progressiva e dos
interesses gerais da Doutrina, é tão evidente, que já causa inquietação o não
ser visto, a surgir no horizonte, o seu condutor. Compreende-se que, sem uma
autoridade moral, capaz de centralizar os trabalhos, os estudos e as
observações, de dar a impulsão, de estimular os zelos, de defender os fracos, de
sustentar os ânimos vacilantes, de ajudar com os conselhos da experiência, de
frizar a opinião sobre os pontos incertos, o Espiritismo correria o risco de
caminhar ao léu. Não somente essa direção é necessária, como também preciso se
faz que preencha condições de força e de estabilidade suficientes para afrontar
as tempestades. - E continua: Os que nenhuma autoridade admitem não compreendem
os verdadeiros interesses da Doutrina (27).
Assim pensando, sua palavra não se limitou apenas às Sociedades, mas à atuação
do indivíduo também: É, portanto, dever de todos os espíritas sinceros anular as
manobras da intriga que se possam urdir, assim nos pequenos, como nos grandes
centros. Deverão eles, em primeiro lugar, repudiar, do modo mais absoluto, todo
aquele que por si mesmo se apresente qual messias, quer como chefe do
Espiritismo, quer como simples apóstolo da Doutrina. Pelo fruto é que se conhece
a árvore; espere-se, pois, que a árvore dê seu fruto, para decidir se ela é boa
e veja-se também se os frutos têm sabor (28). Todos devem concorrer, ainda que
por vias diferentes, para o objetivo comum, que é a pesquisa e a propaganda da
verdade. Os antagonistas, que não são mais do que efeito de orgulho
superexcitado, só poderão prejudicar a causa, que uns e outros pretendem
defender (29).
Com base no que vimos até agora, podemos assumir com tranquilidade a posição de
que a Unificação começa e se inspira na Obra Kardequiana. Dessa forma, os
princípios que devemos seguir nesse propósito de união estão estabelecidos nas
bases do Espiritismo, pelo que nos permitimos parafrasear o Espírito Emmanuel:
se houver regras para a Unificação que fujam dos princípios básicos da Doutrina
- conforme codificada por Allan Kardec -, fiquemos com Kardec e as deixemos de
lado.
Embora correto, este raciocínio não deve extrapolar as medidas do bom senso.
Vale a ressalva para que não se limite a aceitação apenas ao sentido literal das
palavras de Kardec, pois a contextualização é sempre de relevante importância,
mormente neste caso, assim como a contribuição séria que surge, cresce e se
renova a cada dia. Afinal, o Espiritismo, mesmo estabelecido em bases sólidas, é
uma doutrina progressista, portanto evolutiva; a Unificação, decorrentemente,
não pode ser de outra matriz.
O Espírito de Unificação da FEB
Quando a Federação Espírita Brasileira (FEB) apresentou o seu Trabalho de
Unificação do Movimento Espírita no Brasil (30) durante o Congresso Espírita
Mundial realizado em Li`ege, Bélgica, no período de 2 a 5 de novembro de 1990,
registrou para os espíritas do mundo inteiro sua linha de ação no campo da
Unificação, tanto a nível de prática e objetivos como de interpretação própria
do sentido desse Movimento. Dessa forma, o Movimento Espírita tem em seu poder,
além de valorosas mensagens espirituais e outros como fruto do pensamento lúcido
de eméritos espíritas, esse documento de significativo valor, do qual podemos e
devemos extrair graves reflexões acerca dos verdadeiros objetivos da Unificação,
inclusive na ótica febiana.
Ao contrário do que por vezes chega a ser insinuado, a Unificação (do Movimento
Espírita e de união das Sociedades e dos próprios espíritas) não visa a
colocação de cabrestos nem em instituições nem em pessoas, como também não se
propôs a delimitar terrenos ou áreas de ação aos que se engajam em seu roldão
unificador, apesar de nem todos os instrumentos estarem tão aperfeiçoados quanto
seria de se esperar. Conforme propõe a própria FEB, o trabalho de unificação
(...) é uma atividade-meio que tem como objetivo fortalecer e facilitar a ação
do Movimento Espírita na sua atividade-fim de promover o estudo a difusão e a
prática da Doutrina" (31). Nesse documento (32) - que julgamos dever ser do
conhecimento de todos os espíritas engajados nos trabalhos unificadores -, estão
destacadas as diretrizes relativas à filosofia do trabalho de Unificação, as
quais resumidamente: a) baseiam-se nos princípios de fraternidade, liberdade e
responsabilidade preconizados pelo Espiritismo; b) se caracterizam por oferecer
sem exigir compensações, ajudar sem criar condicionamentos, expor sem impor
resultados e unir sem tolher iniciativas; c) proporcionam integração e
participação dos Centros Espíritas de forma voluntária, respeitando-se a
autonomia administrativa que dispõem; d) oferecem programas de apoio e
colaboração simplesmente como subsídios; e) estimulam o estudo constante e
aprofundado das obras de Allan Kardec; f) objetivam colocar, com simplicidade e
clareza, a mensagem consoladora e orientadora da Doutrina; e g) preservam aos
que das atividades de Unificação participam, o direito natural de pensar, de
criar e de agir que o Espiritismo preconiza, assentando-se, porém, todo e
qualquer trabalho nas obras da Codificação Kardequiana.
Se as unidades e células do Movimento Espírita que se sentem excluídas das
estruturas do movimento de Unificação patrocinado pela FEB tiverem perfeito
entendimento dessas colocações, perceberão que se exclusão houver será apenas
dentro de um formato administrativo. A proposta de Unificação verdadeira, aquela
que de fato transcende aos limites que os homens insistem em estabelecer, tanto
está firme e vigorosa na Codificação quanto na estrutura apresentada pela FEB.
Ocorre que para administrar o movimento unificador, a FEB criou, conforme já
vimos, o CFN. Mas o CFN é apenas um órgão que, embora de muita relevância, se
propõe a reunir e congregar representantes do Movimento Espírita para bem
estruturá-lo. Estruturá-lo em que bases? A nosso ver, essas são pelo menos duas:
da aplicação e da vivência. Na aplicação, temos por tarefa desenvolver uma boa
orientação e divulgação espírita junto aos dirigentes e às Casas Espíritas, no
intuito de bem prepará-los para exercerem com equilíbrio e denodo suas funções;
na vivência, pela assimilação e prática da postura contida e ensinada na
Codificação Espírita. Nesse espírito, lembramos Jesus quando asseverou: Todo
aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã e minha mãe (33), ou
seja, quando estamos orientando bem e divulgando equilibradamente, com base nos
postulados morais e cristãos, integralmente contidos na Codificação, estamos
fazendo Unificação, ainda que porventura não estejamos ligados diretamente ao
CFN ou a qualquer outro órgão.
Nisso tudo, devolvemos a palavra a Kardec em quem, sem pretensão de mitificá-lo,
sempre encontramos a reflexão precisa e a ponderação equilibrada: Fora,
portanto, pueril constituírem bando à parte alguns, por não pensarem todos do
mesmo modo. Pior ainda do que isso seria o se tornarem ciosos uns dos outros os
diferentes grupos ou associações da mesma cidade. (...) se alguma concorrência
haja de entre eles existir, outra não deverá ser senão a de fazer cada um maior
soma de bem. As que pretendam estar exclusivamente com a verdade terão de o
provar, tomando por divisa:
Amor e Caridade, que é a de todo verdadeiro espírita. Quererão prevalecer-se da
superioridade dos Espíritos que as assistem? Provem-nos pela superioridade dos
ensinos que recebam e pela aplicação que façam deles a si mesmas. Esse o
critério infalível para se distinguirem as que estejam no melhor caminho (34)
(grifos originais). (Nota: no capítulo 31 de O Livro dos Médiuns há uma mensagem
do Espírito Fénelon, de número 22, sobre a qual acreditamos tenha o Codificador
erigido o raciocínio ora exposto).
Unificação sem uniformização
Concluindo nossos apontamentos, poderíamos dizer que este item seria
desnecessário. Dizemos seria porque alguns podem não lê-lo, por sua extensão, ou
mesmo lendo-o, mas pela falta de síntese que me é peculiar, não perceberem que
de tudo o que já foi exposto se infere que união não é sinônimo, nem direto nem
indireto, de uniformização.
A uniformização das atitudes humanas, tanto em nosso nível atual quanto,
acreditamos, em nível Superior, é perniciosa, pois tolhe a liberdade não só de
agir, mas inclusive de pensar. Por outro lado, nem tudo que se uniformiza
necessariamente se une; o comportamento da Sociedade nos demonstra isso a
mancheias.
Em Espiritismo, querer que essa sinonímia exista e prevaleça na prática entre
seus adeptos, é negar os fundamentos cristãos e morais em que a própria Doutrina
se assenta. Por tudo isso, é muito justo convir mais uma vez com Kardec quando
assevera que Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz
unânime dos Espíritos; não será um homem, como não será qualquer outro, que
fundará a ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se venha impor a
quem quer que seja; será a universalidade dos Espíritos que se comunicam em toda
a Terra, por ordem de Deus.
Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa sua força, a sua autoridade
(35) (grifos originais).
Unir para irmanar; unir esforços para construir. Unificar para fortalecer;
unificar para convergir. Estudar Kardec para aprender; estudar Kardec para
exemplificar; estudar Kardec para progredir.
Viver o Evangelho, amando; viver o Evangelho, compreendendo; viver o Evangelho
para evoluir.
Jesus e Kardec são um todo, são unos e convergem para um só fim. Se neles
estamos concordes e com eles não discordamos, nossa união não tem por que se
demorar. Afinal, Jesus apontou que por muito se amarem é que os seus discípulos
serão reconhecidos enquanto Kardec definia o verdadeiro espírita pela sua
transformação moral e pelos esforços que empreende para domar suas más
inclinações.
Nesse ponto, é justo nos questionarmos: enquanto homens, temos feito tudo que
devemos? Temos feito tudo que podemos? E o que temos feito é o melhor que
podemos e sabemos? - E enquanto Sociedade Espírita, estaremos sendo fraternos,
estendendo as mãos, nos sentando para resolver as divergências? Teremos sabido
destacar os pontos positivos daqueles de quem discordamos? Estaremos sendo
Espíritas?
São muitas as reflexões que surgem. Pena que, na maioria das vezes, não passem
de reflexões. Se nos dispusermos a colocar em prática essas - e muitas outras
reflexões acerca da necessidade de nossa ação pessoal e efetiva -, com certeza
atingiremos um só fim, pois estaremos reunidos num todo já que uno será nosso
pensar e agir. Aí não mais haverá barreiras nem guerras; aí estará, de fato,
estabelecida a verdadeira união. Esse é o Espírito de Unificação que entendemos.
Referências
Mensagem Unificação, publicada na revista Reformador de outubro de 1977, p. 301.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. In.: Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
2ª ed., 1986, Nova Fronteira/RIO.
KARDEC, Allan. Os obreiros do Senhor. In.: O Evangelho Segundo o Espiritismo.
cap.20, item 5, p. 329, 84ª ed., 1982, FEB/RIO.
KARDEC, Allan. Prolegômenos. In.: O Livro dos Espíritos. p. 50, ed. 57ª, 1983,
FEB/RIO.
KARDEC, Allan. Das reuniões e das Sociedades Espíritas. In.: O Livro dos
Médiuns. cap. 29, item 350, p. 434, 47ª ed., 1982, FEB/RIO.
KARDEC, Allan. Caráter da Revelação Espírita. In.: A Gênese. cap. 1, 1ª nota de
rodapé do item 53, p. 42, 24ª ed., 1982, FEB/RIO.
KARDEC, Allan. Amplitude de ação da comissão central. In.: Obras Póstumas. cap.
Constituição do Espiritismo, item 6, pp. 328 e 329, 12ª ed., 1964, FEB/RIO.
KARDEC, Allan. Os trabalhadores da última hora. In.: O Evangelho Segundo o
Espiritismo. cap. 20, item 3, p. 326, 84ª ed., 1982, FEB/RIO.
RIBEIRO, Guillon. Introdução. In.: Trabalhos do Grupo Ismael. p. 33, 1ª ed.,
1941, FEB/RIO.
O documento foi republicado na revista Reformador de janeiro de 1979, p. 46.
Publicado na revista Reformador de abril de 1950, pp. 73 e 74.
Unificação, publicada em Reformador de dezembro de 1975, p. 275.
Primado do Amor, publicada em Reformador de dezembro de 1992, p. 361.
Unificação, publicada em Reformador de outubro de 1977, p.301.
Em A Gênese (cap. 1, item 13), Kardec afirma que ... a doutrina não foi ditada
completa, nem imposta à crença cega (...). Numa palavra, o que caracteriza a
revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos,
sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem - e completa em Obras Póstumas
(cap. Constituição do Espiritismo, item 2): ... É inerente ao caráter
essencialmente progressivo da Doutrina. (...) Apoiada tão só nas leis da
Natureza, não pode variar mais do que estas leis; mas, se uma nova lei for
descoberta, tem ela que se por de acordo com essa lei. Não lhe cabe fechar a
porta a nenhum progresso, sob pena de se suicidar (grifos originais).
Grande Conferência Espírita realizado no Rio de Janeiro item 2º, In., Reformador
de novembro de 1949, p. 243.
Grande Conferência Espírita realizado no Rio de Janeiro item 12º, In.,
Reformador de novembro de 1949, p. 244.
Conforme súmula da reunião transcrita em Reformador de novembro de 1981, p. 337.
Conforme súmula da reunião transcrita em Reformador de novembro de 1981, p. 338.
Conforme súmula da reunião transcrita em Reformador de novembro de 1981, p. 396
A parte da súmula da reunião de que trata este assunto está transcrita em
Reformador, de janeiro de 1984, p.22 e de junho de 1984, pp.186 a 188.
É Kardec (no item O Chefe do Espiritismo, In.: Obras Póstumas. cap. Constituição
do Espiritismo, item 3, p. 317. 12ª ed., 1964, FEB/RIO) quem pondera: Uma
constituição, por muito boa que seja, não poderia ser perpétua. O que é bom para
certa época, pode tornar-se deficiente em época posterior. As necessidades
variam com as épocas e com o desenvolvimento das idéias. Se não se quiser que
com o tempo ela caia em desuso, ou que venha a ser postergada pelas idéias
progressistas, será necessário caminhe com essas idéias. (...) Fora grave erro
acorrentar o futuro por meio de uma regra que se declarasse inflexível.
Para maiores detalhes, recomendamos a leitura dos artigos: FEESPÍRITA/91 -
Congresso Internacional de Espiritismo e Unificação do Movimento Espírita em
Nível Internacional, publicados em Reformador de janeiro de 1992, pp. 26 e 27, e
pp. 34 e 35.
O registro dos apontamentos da reunião do CEI se encontra em Reformador de abril
de 1993, pp. 33 a 35.
In.: O Trabalho de Unificação do Movimento Espírita no Brasil, In.: Reformador
de março de 1991, p. 80.
In.: O Trabalho de Unificação do Movimento Espírita no Brasil, In.: Reformador
de março de 1991, p. 80.
KARDEC, Allan. O chefe do Espiritismo. In.: Obras Póstumas. cap. Constituição do
Espiritismo, item 3, p. 317, 12ª ed., 1964, FEB/RIO.
KARDEC, Allan. O chefe do Espiritismo. In.: Obras Póstumas. cap. Constituição do
Espiritismo, item 3, p. 319, 12ª ed., 1964, FEB/RIO.
KARDEC, Allan. Das reuniões e das Sociedades Espíritas. In.: O Livro dos
Médiuns. cap. 29, item 348, p. 423, 47ª ed., 1982, FEB/RIO.
O documento foi publicado na revista Reformador de março de 1991, tendo sido
recentemente transcrito no documento básico do VIII Congresso Espírita da Bahia
(12 a 15/novembro/1993).
In.: O Trabalho de Unificação do Movimento Espírita no Brasil, In.: Reformador
de março de 1991, p. 80.
In.: O Trabalho de Unificação do Movimento Espírita no Brasil, In.: Reformador
de março de 1991, p. 80 a 83.
Jacob Melo
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