À época em que Francisco Cândido Xavier completava 70 anos de prática
mediúnica, elaboramos um pequeno livro – Chico Xavier. O homem e a obra (Edições
USE, 1997), dedicando um capítulo para a análise do tema unificação na produção
psicográfica do notável médium.
Sob o impacto de sua recente desencarnação, voltamos a meditar sobre o assunto.
Um fato extremamente significativo é que as obras da fase áurea da produção
psicográfica de Francisco Cândido Xavier são publicadas pela Federação Espírita
Brasileira, que apoiou, orientou e defendeu o médium desde o início de seus
labores. Até nossos dias, REFORMADOR divulga e transcreve textos psicográficos
de Chico Xavier.
Às vésperas do 60º aniversário das tarefas mediúnicas de Chico, veio a lume a
obra Testemunhos de Chico Xavier (FEB, 1986), onde Suely Caldas Schubert comenta
a contínua correspondência entre Chico Xavier e o Presidente da FEB, Antônio
Wantuil de Freitas. Foram selecionadas cerca de uma centena de cartas de Chico,
entre 1943 e 1964. A leitura desse livro permite que se acompanhe a evolução de
muitos episódios relacionados com o Movimento Espírita.
Além do intenso envolvimento de Chico Xavier, nas primeiras décadas de seu
labor, com a Entidade coordenadora do Movimento Espírita brasileiro, há vários
textos de sua produção mediúnica sobre unificação. Provavelmente a mais antiga
página específica sobre unificação foi psicografada por Chico Xavier em 1948. Em
nosso livro sobre Chico Xavier destacamos o texto de Emmanuel, dirigido aos
participantes do 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, realizado em
São Paulo, de 31 de outubro a 5 de novembro de 1948, e liderado pela então
nascente União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Nessa página,
intitulada "Em nome do Evangelho", Emmanuel se fundamenta na expressão "Para que
todos sejam um" (João, 17:22). Eis uns trechos do texto:
"Reunindo-se aos discípulos, empreendeu Jesus a renovação do mundo.
(...) Reunidos, assim, em grande conclave de fraternidade, que os irmãos do
Brasil se compenetrem, cada vez mais, do espírito de serviço e renunciação, de
solidariedade e bondade pura que Jesus nos legou.
(...) O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. Conscientes,
porém, de que se faz impraticável a redenção do Todo, sem o burilamento das
partes, unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação,
solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em
comunhão com os homens, servindo e experando o futuro, em seu exemplo de
abnegação, para que todos sejamos um em sintonia sublime com os desígnios do
Supremo Senhor."
Outro fato ligado a esse conclave está registrado em carta datada de 18-11-48,
inserta em Testemunhos de Chico Xavier (p. 239-241). O médium escreve a Wantuil
de Freitas: (...) "Fiquei muito contente com as notícias que me mandaste acerca
da embaixada gaúcha. É isto mesmo. Falar e fazer são dois verbos muito
diferentes. Esperemos o rio das horas.(...)." A autora comenta que Chico se
referia a alguns participantes do Congresso que teriam outros projetos para a
unificação, o que não aconteceu e acabou se encaminhando para a opção do "Pacto
Áureo" – o Acordo da Unificação do Movimento Espírita Brasileiro – assinado em
1949. Em outra missiva, datada de 15-3 -1951 (Obra citada, p. 289-290), Chico
informa ao presidente da FEB:
(...) "O Dr. Lins de Vasconcellos esteve aqui e encontramo-nos, por duas noites
consecutivas. Falou-me do teu trabalho com muito carinho e mostrou-se excelente
amigo da unificação, cujo movimento lhe interessa, sobre-maneira, a missão do
momento".(...).
O estado do Professor Leopoldo, ao que suponho, realmente inspira
cuidados.(...)."
Os dois companheiros citados por Chico foram vanguardas do movimento de
unificação por ocasião do "Pacto Áureo" e da Caravana da Fraternidade.
Os textos de sua produção mediúnica são adotados nas tarefas de unificação.
Haja vista a conhecida e marcante página "Unificação" (recebida em reunião da
Comunhão Espírita Cristã, em Uberaba, aos 20-4-1963 e várias vezes publicada em
RE-FORMADOR) em que o Apóstolo da Unificação e ex-presidente da FEB Bezerra de
Menezes escreve (trechos):
"O serviço de unificação em nossas fileiras é urgente mas não apressado. Uma
afirmativa parece destruir a outra. Mas não é assim. É urgente porque define
objetivo a que devemos todos visar; mas não apressado, porquanto não nos compete
violentar consciência alguma. Mantenhamos o propósito de irmanar, aproximar,
confraternizar e compreender, e, se possível, estabeleçamos em cada lugar, onde
o nome do Espiritismo apareça por legenda de luz, um grupo de estudo, ainda que
reduzido, da Obra Kardequiana, à luz do Cristo de Deus. Nós que nos empenhamos
carinhosamente a todos os tipos de realização respeitável que os nossos
princípios nos oferecem, não podemos esquecer o trabalho do raciocínio claro
para que a vida se nos povoe de estradas menos sombrias.
Nenhuma hostilidade recíproca, nenhum desapreço a quem quer que seja. Acontece,
porém, que temos necessidade de preservar os fundamentos espíritas, honrá-los e
sublimá-los, senão acabaremos estranhos uns aos outros, ou então cadaverizados
em arregimentações que nos mutilarão os melhores anseios, convertendo-nos o
movimento de libertação numa seita estanque, encarcerada em novas interpretações
e teologias, que nos acomodariam nas conveniências do plano inferior e nos
afastariam da Verdade.
Respeito a todas as criaturas, apreço a todas as autoridades, devotamento ao bem
comum e instrução do povo, em todas as direções, sobre as Verdades do espírito,
imutáveis, eternas."(...).
Bezerra de Menezes dá o tom do serviço de unificação!
Desde a época da produção desse significativo texto, nesse período de tempo,
firmou-se o conceito de unificação como sinônimo de não intervenção, de ação
conjunta, de respeito à diversidade de condições das instituições espíritas e de
somatória de esforços.
A unificação é um processo lento, de amadurecimento, que caminha no sentido de
estimular a vivência de participação, de intercâmbio e de respeito entre as
instituições espíritas.
A essa altura, é interessante um destaque singelo de outra obra mediúnica de
Chico Xavier. No conto "A árvore preciosa", Neio Lúcio escreve sobre os cuidados
excepcionais requeridos para que germinassem as sementes da árvore, que foram
abafadas pelas disputas e pelo egoísmo, encerrando com o comentário:
"– Quando a verdadeira união se fizer espontânea, entre todos os homens no
caminho redentor do trabalho santificante do bem natural, então o Reino do Céu
resplandecerá na Terra, à maneira da árvore divina das flores de luz e dos
frutos de ouro."
(Jesus no Lar, cap. 46, ed. FEB.)
Antonio Cezar Perri de Carvalho
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